Carl Schmitt e nós

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Segundo a imprensa da época, Fraga Iribarne entregou com emocionadas palavras ao professor Carl Schmitt a insígnia e diploma correspondente como membro de honra do Instituto de Estudios Políticos. A data, 21 de março de 1962. Era a primeira vez que o think tank franquista realizava esta cerimónia. Em declaraçons ao Arriba e depois reproduzidas polo ABC, Carl Schmitt afirmava que a situaçom da Espanha, ideologicamente, era superior à de Europa. Após a derrota de Hitler, Espanha virava um bom refúgio para os delírios do principal teórico do nacional-socialismo.

 

Dous anos antes, saíra a versom espanhola de Ex captivitate salus (Experiencias de los años 1945-47). Manolo Rivas comenta nos Livros ardem mal, que o próprio Schmitt escreveria um prólogo para esta ediçom em Casalonga, umha casa de campo nos arredores de Compostela. Neste livrinho de memórias, Schmitt nom fai referencia nengumha ao Holocausto. O extermínio de milhons de pessoas era um efeito colateral menor.

 

Nom toda a gente pensava igual, por exemplo, Thomas Mann, 1945: “Para reconciliar-se com o mundo há umha condiçom prévia, a cujo cumprimento fica vinculado qualquer entendimento moral com outras naçons e sem o qual vós, os alemáns, nunca compreenderedes o que vos está a acontecer. Trata-se da inequívoca admissom de que o que a Alemanha, instruída na bestialidade por infames mestres, inflingiu a humanidade é inexpiável. Trata-se da aceitaçom, plena e sem reservas, de uns crimes terríveis dos quais na realidade só conhecedes umha pequena fraçom, em parte porque fostes isolados e violentamente desterrados à necedade e a ignorância, em parte porque, por instinto de autoproteçom, mantestes afastado da vossa consciência o conhecimento deste horror”.

 

No entanto, Carl Schmitt nom mostra arrependimento nengum e os espanhóis compreendem muito bem as liçons deste infame mestre. Há pouco os seus herdeiros aparecêrom de novo. A pesar da calculadíssima cobertura mediática, a sua presença foi discreta. Quase ninguém lhes cuspiria na cara se os vissem passar pola rua. Eles sabem que é preciso suspender a lei para preservar a lei: desrespeito à presunçom de inocência, conculcaçom do direito à imagem pública, prisom preventiva, isolamento, dispersom, etc.

 

Para o arquitecto do modelo jurídico do III Reich, a política deve desaparecer. O objectivo é eliminar o adversário, o indesejável, o inadaptado. O senso comum deve fabricar o sub-humano [Untermensch]: a outra estrangeira, a outra perigosa, a outra empobrecida. Carl Schmitt legitimaria esta exclusom com a dicotomia amigo-inimigo. Pune-se ou agrava-se a pena polo que o sujeito é, nom polo que fijo: judeu, imigrante, independentista, etc. Günther Jakobs qualifica-o como Direito penal do inimigo e mesmo emprega a expressom “nom-pessoas” [Unpersonen]. Este jurista bebe nas águas podres de Carl Schmit.

 

Com que entusiasmo justificou a Noite das facas longas! Com que eloquência defendeu o estado de exceçom depois do incêndio do Reichstag! Com que lucidez lembrou a participaçom de todas as naçons do mundo nas Olimpíadas de Berlim!

 

Agamben leva alguns anos advertindo da atualidade do seu pensamento. Mesmo, Carl Amery define Hitler como um precursor. Brandariz reflexiona sobre o excecionalismo hispano. Pensemos hoje na USA PATRIOT Act, na Lei de Estrangeria, em Guantánamo, em Gaza, em Abu Ghraib, na legislaçom antiterrorista... Enfim, hoje nem lhes interessa a farsa da democracia representativa. Goldman Sachs já pode pôr os seus representantes sem ter de passar por esse circo. Acabou umha ilusom.

 

Os nazistas de hoje, claro, nom se chamam nazistas, especulam com alimentos na Bolsa de Chicago, invadem Líbia, adoram os mercados, engordam paraísos fiscais, abrem centros de internamento para imigrantes ou exterminam a nossa cultura.

 

Os nazistas de hoje, como os de antes, vam bem vestidos e recendem a colônias caras. Eles chamam-se gestores e orgulham-se de nom ter ideologia. Instruídos na bestialidade, as suas decisons sempre som técnicas. Eles obedecem, executam, calam. Nom fam perguntas. Administram a barbárie. Nas suas maos, os seres humanos somos mercadorias e algumhas dessas mercadorias som supérfluas, incômodas, descartáveis.

 

Nom som conscientes de que as praças começam a atestar-se, de que o pessoal está farto, de que a massa de inimigos cada dia é mais enorme. A indignaçom pode parar a destruiçom da biosfera e esta maré transformada em revolta já sonha com um novo Julgamento de Nuremberg, de Frankfurt, de Jerusalém.

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