Cuidar-se da magia da linguagem
A filosofia de Wittgenstein tinha um algo que a fazia mui frustrante para os grandes teóricos: nom tinha grandes pretensons, apenas dizia que havia que vigiar a linguagem, porque, às vezes, esta toma vida própria e joga-no-la, engana-nos, inventa problemas, realidades, etc. As armadilhas da linguagem som o pam de cada dia na cultura política da que vimos. Nom som especialmente perigosas porque enganem a ninguém alheio. Na realidade, por muitas maiúsculas que se empreguem, e grandes dosses de retórica épica, o Rei continua despido. Como muito sublinha-se ainda mais essa nudez, como quem berra histérico que nom está zangado. Mas, quantas vezes nom nos engana a nós próprias, os únicos peixes que atendem ao nosso cevo? Parafrasando Marcel Mauss: o independentismo paga-se a si próprio com a falsa moeda dos seus sonhos.
A literatura independentista está infestada de grandiloquências, maiúsculas, pragada de adjetivos e palavras rematadas em -ismos (há sempre um -ismo para todo e contra todo, forma abreviada de acusar sem razoar), solenidade de cargos e responsabilidades irrelevantes, exclamaçons, muitas exclamaçons, pompa, épica, exclusivismos... Com o mesmo prazer de quem joga ao rol, desenhamos grandes estruturas, articulamo-las entre si e asignamos cargos: Assembleias Nacionais, Mesa Permanente, Conselho Executivo, Responsabilidade Comarcal... Palavras, como "Nacional", exercem um conjuro especial, umha ilusom ótica: automaticamente, o "Nacional" erige-se em aquilo que está por riba e pode falar em nome de todas. Nom é umha suma ou coordenaçom de projetos concretos, de diversos pontos, é um Absoluto.
A obscenidade sublinha-se a si própria: escreve-se o nome da própria organizaçom com maiúsculas -com berros!-, e sinala-se sempre que é a única -embora haja três ou quatro... Fala-se em nome de umha totalidade: "o independentismo de esquerdas", "a juventude independentista" e, como nom, “o Partido”. Redescubrimos aquele sentimento de perplexidade da infância: “profe, porque quando se fala de Deus o artigo vai em maiúsculas?”; voltamos ao incompreensível problema da Santa Trinidade, agora chamada "Povo Trabalhador Galego", que permanece polos séculos dos séculos mudo, mas funcionando como um excelente boneco de ventríoquo.
Permanecer atentas a estas armadilhas da linguagem, a acreditarmos nos falsos mundos que nós próprias criamos, devera ser umha prioridade. Construir umha linguagem ajustada à realidade, porque será a única que nos ajude a transformá-la; do mesmo jeito que nengum grande projeto de engenharia foi capaz nunca de abrir um só rego.


