GZ Power
Quanto amor cabe na nossa língua? Quanta vida? Quanta beleza? Eu já estou cansada de escuitar que o galego é umha imposiçom, que é artificial, que nom vale para nada. Já chega de tanto estigma.
Eu estou farta de me envergonhar por falar o nosso idioma, de andar a pedir perdom e licença e desculpe e nom sei que. Os negros nom se sentem orgulhos por terem a pele escura? Pois eu também me sinto orgulhosa por ter a língua escura e pronunciar sete vogais. Sete vogais bem marcadas. A mim Michael Jackson parece-me ridículo. Eu nom quero branquejar a minha língua. Minha mai tentou-no. De pequena falava-me num castelhano impossível. Depois aprendim que isso se chama 'diglossia' e que nom tem nada a ver com o bilinguismo. No entanto, minha avoinha nom pegou tam mau hábito e sempre gostou de ensinar-me o nome exacto de cada cousa. Alá por onde íamos, explicava-me: aquele passarinho é o pisco. E para nom me esquecer, eu repetia 'pisco'. Ela dizia: hoje é quarta-feira. E eu em silêncio 'quarta-feira'. Esta flor é umha abrula que por aqui chamam 'milincroca'. Isto é umha bugalha e isto a carriça. Aquele o Monseivane. E assim dia após dia ela oferecia-me aquelas palavras como o mais precioso dos tesouros.
Eu agora fago o mesmo. Para mim é um acto de amor falar sempre a nossa língua. Eu quero compartilhar com todas as pessoas o maior património que temos os habitantes da Galiza, porque o galego é um imenso Pórtico da Glória que pronunciamos cada dia, é a pedra angular que nos sustém e nos abre ao mundo. Que melhor forma de apreciar tanta fermosura que entrando em contacto com ela? Por isso, ainda que me falem castelhano, sempre respondo em galego. Eu som-vos mui teimosa e se, por exemplo, nom percebem 'croques', pois volto a repeti-lo. E, se tampouco, pois digo 'berberecho', 'chícaro', 'crica', 'berbigom'. E se nem com essas. Entom fago o que dizia minha moura avoinha: tu convida-os a jantar e já verás como entendem. Nom conhecer umha palavra nom significa que a inventasse um linguista no seu laboratório. Foi o povo quem criou e conservou a nossa língua. Ela tem tantos matizes, tantos sotaques, tanta vida que é normal nom deixar nunca de mamar o galego. Eu penso que cada palavra que aprendemos nos fai mais humanos, mais cheios de amor polo nosso povo.
Disque além do Padornelo a nossa língua nom serve para nada. Que insinuam? Que nom
temos direito a morar no nosso País? Que a mocidade galega deve continuar a emigrar?
Que nom há vida além dos Pirinéus? Que todo se reduze à utilidade? O que lhes acontece é que detestam que nom baixemos a cabeça, que nom dobremos as costas, que nom assumamos a mcdonalizaçom do mundo, que nom queiramos ser estrangeiros na nossa própria Terra, que falemos a nossa língua adrede sabendo que nom é a dos brancos, mas que também é extensa e útil. É preciso irmos do Courel a Compostela, do Ortegal ao Algarve para darmo-nos conta de que si, é diferente, mas que nom deixa de ser nossa. Cumpre fazermos umha viagem polo galego falado em quatro continentes e sobre todo aqui no seu berço para ultrapassarmos essas fronteiras mentais erguidas à base de ignoráncia e preconceitos. A Galeguia está aí e podemo-la desfrutar. Renunciarmos ao nosso próprio mundo é umha tendência suicida incompressível.
Temos o poder de aprender, o poder de amar, o poder de decidir, o poder de caminhar, o poder de ser livres. Graças à potência do idioma, nós podemos. Este nom é o Black Power. Nom é o Prometeu africano. É o GZ Power, o Prometeu galego.

