Umha língua indomável

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Em julho de 2011, umha professora da USC comentava no Pais-Galicia a apariçom de Um dia da minha vida de Bobby Sands. Sublinhou a sensibilidade, a convicçom e o lirismo que manam das suas páginas e o eficaz contraste que producem com a dureza do narrado, mas lamentava-se que o texto saísse “nunha indefinida opción ortográfica que distancia aos receptores galegos sen conseguir cativar aos portugueses”. Poderia dizer justo o contrário: “que aproxima os receptores portugueses e cada vez mais cativa os galegos”. Mas nom foi assim. Aproveitou para atualizar os seus preconceitos, posicionar-se e questionar umha escolha normativa, a da Agal neste caso. Dumha maneira semelhante, ao comparar as torturas nas cadeias de Belfast, véu-lhe à cabeça Abu Ghraib ou os cárceres chineses, nom se lembrou do habitual desta prática no Reino de Espanha como ano após ano denuncia o Coordenadora para a prevençom e a denúncia da tortura. Agradece-se a visibilizaçom dum projeto alternativo como Estaleiro Editora, no entanto, é doloroso o silêncio a respeito da tortura, o mesmo que a cumplicidade com o processo de exclusom cultural que sofre a Galiza.

 

Que outra possibilidade há para familiarizar-se com outro modelo de língua que nom seja entrando em contato com ele? Nom se poderia censurar também a indefinida opçom ortográfica da maior parte dos livros de Xerais ou Galaxia inçados como estám de castelanismos léxicos, sintácticos e fraseológicos? Penso que há assuntos que nom estám a ser bem enfocados. Infelizmente confirmo esta ideia sempre que algumha pessoa di “Feikhoo” em vez de “Feijó” ou “Rio de Khaneiro” em vez de “Rio de Janeiro” Por que sim sabemos pronunciar o “j” catalám e nunca dizemos “Khordi”? Por que Pondal escrevia "boos e generosos" com “g”? Está mais perto a Catalunha da Galiza do que a Galiza de si própria?

 

Nom é inocente o emprego dumha ou doutra ortografia. A naçom, como a língua, é um plebiscito diário. Nós escolhemos: hispanofonia ou lusofonia, monarquia ou república, dependência ou independência, submissom ou insurreiçom. Umha opçom reafirma o status quo autonomista, a outra desafia-o. Como diria Fagim, deixar de escrever o galego com ñ e começar a fazê-lo com nh é um pequeno passo ortográfico, mas um grande passo linguístico.

 

Estamos a desperdiçar uns magníficos recursos. Neste roubo colectivo tem umha grande responsabilidade o nacionalismo espanhol, mas também determinados agentes galeguizadores. Vivemos num país onde a hegemonia do castelhano inunda todos os âmbitos da vida e do pensamento. Estamos cansados de escuitar que o galego é umha fala minoritária enclausurada em quatro províncias espanholas. Porém, o galego nom tem 150 anos, tem 1000. Hoje ainda é a língua maioritária da Galiza e, aliás, possui umha projecçom internacional.

 

Estamos numha situaçom tam próspera como para renunciarmos a algum destes aspectos? Era tam disparatado Murguia por proclamar como nossas as obras escritas por Camões, Vieira ou Herculano? Tam ridículo Vilar Ponte por reconhecer Portugal como baluarte da nossa independência espiritual? Tam estúpido Castelao por querer aproximar e confundir o galego com o português?

 

Estas certezas nom podem ficar num brinde ao sol, polo contrário, deveriam virar um galeguismo banal, um senso comum que una a sociedade e oriente a política linguística, cultural e educativa. É mais útil para a Galiza afirmar que na Extremadura espanhola falam galego que dizer o mesmo a só cinco minutos de Tui? Este reencontro suporia um salto histórico, político e económico extraordinário para a consciência nacional. Um exemplo: o dicionário Hoauiss tem 228.500 verbetes, o da RAG só 25.000.

 

Temos o direito de aprender dos mestres e o dever de atingirmos a restauraçom plena do idioma. É inaceitável assumirmos a humilhaçom dumha língua capada. A pesar de 500 anos de colonialismo, a nossa língua ainda nom foi domesticada. A pesar de 500 anos de lavagem cerebral, ainda é umha língua indomável.

 

O processo etnocida que padecemos socializa a ignorância e limita o nosso horizonte cultural. Contodo, facilmente podemos ler no galego de Portugal, mas ninguém nos ensinou a escrever com a nossa ortografia histórica. As pessoas que realizam este esforço nom merecem ser marginadas. Justo o contrário. Nom podemos permitir a ruína moral de umha sociedade que perpetua esta situaçom. A gente dará-se conta do imenso potencial do galego e achará um modelo de língua estável e de referência, se conseguirmos mudar as condiçons que nos fam viver de costas ao nosso próprio mundo. Três já velhas propostas: a) liberdade normativa, b) maciço intercâmbio cultural e humano com os países galegófonos e c) aprendizagem do português no ensino obrigatório.

 

Há medo, muito medo de que a gente do comum conheça esta projecçom internacional, reconheça como própria a sua língua e desfrute dos seus benefícios. É preciso restituirmos o léxico, a sintaxe, a fraseologia, mas também a ortografia e assim deixarmos de ler Pérez Reverte e, sem alfândegas, dialogar com Pepetela, Luandino Vieira ou Lídia Jorge. Esquecermo-nos de Bisbal e cantarmos com Valete, Pedro Abrunhosa ou Deolinda.

 

É fundamental transgredirmos o tabu, acabarmos com a salmódia da língua minoritária, alargarmos a dignidade nacional do nosso povo. Ugia Pedreira, Quico Cadaval ou Carlos Quiroga som magníficos modelos que se podem estender ao resto do país. Aproveitemo-los. Rachemos o colete de forças. Tendamos pontes. A nossa soberania está em jogo.

 

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